Entrepreneur Code - As mentiras que te contam sobre empreender

Seguir seu sonho, mudar de vida, largar um trabalho que paga bem pra empreender. Acordar 5h da manhã e só parar de trabalhar à meia noite, não ter férias durante anos, tudo isso é motivo de aplausos né? A glamourização do empreendedorismo é uma percepção ultrapassada que, infelizmente, ainda convence. Este é um texto sobre empreendedorismo raíz. Tá afim de falar sobre o que realmente acontece, sem romantização? Então vem comigo.

Empreender não é tudo isso

É inacreditável a quantidade de BULLSHITAGEM que faz parte do universo empreendedor. Por isso, resolvi falar pra quem quiser ouvir (na verdade, ler) o que a vida me ensinou sobre o mundo real e nada sexy do empreendedorismo.

Faz um tempo que circulam por aí dicas sobre como ser/como fazer/como parecer. Criou-se Entrepreneur Code e eu vou desconstruí-lo começando por três assuntos.

1- Hábitos

“Siga seu sonho e faça tudo por ele. Quem deu certo, nunca desistiu. Motivação, determinação e resiliência. Você faz seu horário, mas quem empreende, pensa 24h por dia no seu negócio. Se você faz home office, crie uma rotina de horários e vista-se como se estivesse na firma. A receita do sucesso é resistir.“

Aquele papo da meritocracia, né? Você deve ser imparável, inesgotável! A verdade é que esta é a receita perfeita pra apresentar, em algum momento, um quadro de estafa. É claro que ter disciplina, foco e motivação é fundamental na vida, não só pra quem tem empresa. Mas este excesso de não faça isso/faça aquilo é, basicamente, nos colocarmos como escravos do propósito, e não de servi-lo. Você precisa estar bem física e psicologicamente pra produzir e fazer sua missão virar realidade.

Enquanto pintam a imagem de que o empreendedor é incansável, você precisa aprender sozinho a identificar suas fraquezas. Se você largou tudo pra fazer algo que ama, com certeza não vai ser por falta de esforço que você vai cair.

Saber a hora de descansar e compreender a linha tênue entre a resiliência e o murro em ponta de faca faz parte da disciplina necessária e, disso, pouca gente fala. Mais do que motivação e trabalho infinito, o negócio mesmo é a tal da diligência, o equilíbrio belíssimo entre o preciosismo e o “acho que já tá bom”. Confie no seu taco, dê o melhor de si, mas entenda que você não vai encontrar o melhor de você enquanto estiver desconfortável, dormindo pouco e sem tempo pra mais nada.

Empreender pode - e deve - ser sobre liberdade e consciência. Passa longe de fazer nas coxas ou se torturar. Você vai precisar de uma boa dose de autoconhecimento, autocrítica e amor próprio, antes do amor pelo que se faz e pelo porquê se faz.

"Ah, mas eu não posso demonstrar isso pra ninguém, preciso manter a imagem." -  Não demonstrar vulnerabilidade porque é bonito ser o super-herói da empresa também é o caminho pra afastar o time e se tornar chefe, ao invés de líder. E falando em imagem pessoal...

2- Personal Brand e Redes Sociais

“Invista na sua marca pessoal. A primeira impressão é a que fica. Você precisa transmitir seriedade e credibilidade.”- Entre outros padrões que nos enfiam goela abaixo.

Personal brand, meu amigo, não deveria ser você se transformar em uma Barbie do empreendedorismo. Travestir a sua imagem de algo que você não é, não significa investir na sua marca pessoal. Na real, é sobre manter a naturalidade e enaltecer aquilo que você tem de melhor, o que muitas vezes é difícil. Afinal, não é todo dia que a autoestima tá lá em cima, né? E ainda bem, se a sua exposição for embasada em ego inflado, você não tá enriquecendo sua marca, pelo contrário.

A dica é reconhecer tudo que você tem de bom pra compartilhar. Tá inspirado? Escreva um textinho, tire uma foto boa, ajude alguém que tá precisando. Tudo na sinceridade, a vida como ela é. Assim, as pessoas não vão te perceber como um ser inatingível, distante e digno de inveja. O legal mesmo é quando as pessoas olham pra você e enxergam um amigo com defeitos assim como todo humano, mesmo sem ter tido longos papos contigo. E é bem gostoso quando alguém que você nem conhece te pede um conselho, significa que você se demonstrou aberto, que esta pessoa curte o seu discurso e isso vale mais do que 10 mil likes. Por isso, você precisa estar à vontade pra expressar quem você é e abrir o jogo nunca foi tão fácil, não é mesmo?

 
glamour
 

O fato é que as redes sociais são, ao mesmo tempo, nossas amigas e nossas inimigas na construção de uma boa marca pessoal. São amigas porque facilitam a propagação das nossas ideias e são inimigas porque ainda não há transparência. Parece que existe uma pressão social pra que sejamos felizes, ativistas, belos e queridos nas telas dos smartphones.

Já foi o tempo em que os amigos das nossas redes sociais eram pessoas próximas. Hoje, aquele seu brother de falar besteira aparece ao lado do seu cliente e daquele contato quente. Por isso, a gente se policia mais: “putz, não posso postar meme e palavrão, vai pegar mal.” Fora todas as listas de dicas pra você parecer um bom profissional nas redes sociais, né? É aí que mora o perigo. Se o seu comportamento nas redes sociais é muito diferente de quem você é de fato, você tá vendendo uma ideia de você, não você de verdade. É igual às marcas que se fazem de moderninhas e são extremamente preconceituosas internamente. Feio né? Não faça isso.

Ter uma marca pessoal forte é sobre demonstrar que você pensa e faz muito pelo seu negócio, que você faz o possível pra deixar um bom legado. E a foto da cerveja no boteco de mesa amarela? E a foto de biquíni na praia? O vídeo vergonhoso do karaokê com os amigos? Pois é, tudo isso são conteúdos que as mentes mais fechadas gostariam de censurar. É uma longa lista de “não pode” que eu, sinceramente, acho uma grande bobagem. Afinal, se você trabalha, gera impacto e tem vida social ativa, qual é o problema? Pessoas que empreendem não podem ir à praia?

 
FOTO DE CAMISA E BRAÇOS CRUZADOS, EMPREENDEDORES DEMONSTRANDO SUA CREDIBILIDADE - Só que não.

FOTO DE CAMISA E BRAÇOS CRUZADOS, EMPREENDEDORES DEMONSTRANDO SUA CREDIBILIDADE - Só que não.

 

Sejamos sinceros, a nossa vida estará a cada dia mais exposta segundo os estudos mais modernos sobre o futuro da tecnologia. Quem finge ser o que não é está com os dias contados, portanto, sou do time do SEJA QUEM VOCÊ É E NÃO TERÁ NADA A ESCONDER. Punto e basta.

3- Parceria

Todo mundo já passou por propostas indecentes de parceria, onde você entra com o trampo e o outro lado te promete visibilidade e vantagens intangíveis. Ou aquele clássico Spec Work, pelo qual você precisa investir seu escasso tempo e demonstrar seu potencial antes de fechar negócio. Nos posicionemos contra isso, ok? Já passamos desta fase.

Quero falar sobre parceria de verdade sob a minha perspectiva e experiência. Diferente do que se espera de uma parceria de negócios, a maioria das reuniões com os parceiros mais duradouros e enriquecedores não aconteceram em escritórios e, sim, no barzinho, no restaurante, num café e no WhatsApp. Isso não quer dizer que não passamos por reuniões sérias e em ambientes quadradinhos pra concretizar os planos, mas a vontade e a união real de forças aconteceu em momentos de descontração, onde nenhuma das partes estava munida de ego.

No papo reto e sincero, quando se fala sobre a vida e nos propomos a conhecer a pessoa antes do profissional, é que se encontram intersecções entre as intenções. E é nesse momento que existe a segurança em perceber que a parceria não será benéfica apenas pra um dos lados, porque existe um propósito. Depois desse encontro puro, vocês sentam e entendem os próximos passos pra partir pra ação. Posso garantir, esta é típica “reunião pra marcar reunião” que funciona.

Caso contrário, o ego tem um papel importante e ambíguo. Isso porque, se você se coloca em uma posição de superioridade, você deixa de aproveitar oportunidades e reconhecer pessoas que podem acrescentar aos seus objetivos. Se você se coloca numa posição de inferioridade, onde o outro lado está te ajudando e você precisa desta pessoa pra dar seguimento aos planos, você acaba se submetendo à situações pouco favoráveis, acreditando que a tal parceria é uma caridade e você, sendo um empreendedor tão insignificante, topa qualquer negócio.

A dica é: conheça e reconheça pessoas que se comportam e falam coisas que fazem sentido pra você, mantenha-se aberto a encontrar boas parcerias até na fila da conveniência. Não acredite em cartões de visita ou em apertos de mão. A mágica acontece quando nos despimos da pressão social e nos colocamos como pessoas que têm objetivos guiados pela emoção e buscam ajuda mútua.

PLUS - Eventos de networking fajuto

Responda sinceramente: quantas vezes você foi a eventos, entregou e recebeu mil cartões, trocou meia dúzia de palavras e nenhum desses contatos vingou? Nenhuma parceria, nenhum novo negócio, nenhum papo depois do evento. Pois é, acontece MUITO e não é à toa.

Primeiro, porque as pessoas já chegam querendo se vender e não existe papo mais chato do que aquele em que todo mundo tenta contar vantagem e demonstrar pros outros o quanto seu negócio é incrível. Cada um fala por si e não se chega a lugar algum. Vai por mim, a maioria do que se fala nestes cenários é mentira ou quase. Se você for com uma postura de boas e não entrar nessa dança, parece que seu papo nem interessa e você acaba conversando com pouca gente.

Mas isso não acontece só porque somos todos tolinhos. O comportamento, geralmente, segue o fluxo do ambiente e da experiência construída no evento. Posso garantir que o ambiente formal, aquele coffee break no meio do salão e todo mundo com vergonha de comer, palestrante endeusado e distante do público, tudo isso contribui pra que o clima seja de competição, não de afinidade.

 
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Como palestrante e participante, invisto meu tempo e meu dinheiro em eventos que deixam claro que são um rolê maneiro. O que o evento precisa prometer é muito mais do que conteúdo porque é neste “muito mais” que você vai ter oportunidade de trocar ideias relevantes.

Em resumo

Não se escravize, seja você mesmo e tenha paciência pra fazer contatos relevantes. O resto, vem. Estamos conversados por hora? Se quiser bater mais um papinho, to sempre por aí, pronta pra NÃO ser o retrato da empreendedora glamourosa de salto alto. Aceito convites e conheço ótimos cafés.

Beijos


 
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Marilia é facilitadora e estrategista de inovação, marcas e cultura organizacional. Fundou o ELEVANTE para proporcionar inovação de forma acessível e simplificada para organizações e pessoas.