Greve dos Caminhoneiros e o Paradigma da Escassez

Todos foram impactados, alguns de forma mais severa, outros nem tanto. Diante deste cenário de tanques e prateleiras vazios, achei justo buscar reflexões para além da crise atual, além do posto de combustível, além da minha viagem cancelada e, principalmente, além da mídia tradicional.

Não é torcer ou acusar um partido político, não é concordar com a greve ou rejeitar o objetivo dos caminhoneiros, não é apenas uma questão de crescimento econômico em 2018. Sejamos sinceros, o buraco é mais embaixo. Nada do que estamos vivendo hoje, se originou ontem. Por isso, preferi ler e ouvir sobre a perspectiva de pessoas que considero lúcidas, mas com aquela pimenta que só o ímpeto pela evolução permite. O artigo de hoje é colaborativo, diverso e tem a intenção de fomentar novas discussões sobre o que estamos vivendo e, principalmente, sobre como estamos nos preparando para o que está por vir.

A crise de agora é uma excelente oportunidade de pensarmos a longo prazo.

Com a palavra, a galera que manja:

 

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  • Antonio Rodrigo Machado

Advogado especialista em Direito Público e mestrando em Direito Administrativo Sancionador, professor e palestrante nas áreas de Direito Administrativo, Constitucional e Penal com ênfase em Legislação Anticorrupção, Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Distrito Federal, exercendo também a presidência da Comissão de Legislação Anticorrupção e Compliance e diretor da Escola Superior de Advocacia do DF.

 

A atual crise do país reflete uma política governamental que tende a aprofundar as diferenças sociais. O mercado tem amplo espaço para buscar o lucro exorbitante em todos os setores e o desabastecimento em razão da greve de caminhoneiros é apenas mais um reflexo disso.

Preços absurdos dos combustíveis necessários à movimentação do país e um desemprego crescente não são motivos para uma oposição ferrenha da mídia. Há um acordo entre governo e mercado que trata como irrelevante os interesses da população. Espero que as próximas eleições possam dar um rumo em busca de um projeto nacional que respeite o povo brasileiro.

 
 

 
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  • Rafael Prikladnicki

Diretor do TECNOPUC, Membro do Board da Agile Alliance Brazil, Professor e Palestrante

 

Não abasteci o carro.
A gente fica numa reflexão entre medo de faltar X daqui a pouco tudo isso vai acabar. Mas outra reflexão surgiu. A de que outra pessoa podia precisar da gasolina que eu hipoteticamente colocaria, mas de fato não precisaria. Por que? Por que meio tanque para mim é mais do que suficiente para andar no mínimo uma semana. E encher nesta situação seria apenas "garantir" que terei caso precise.

Como assim? Se essa greve durar mais do que uma semana TODOS vão precisar. Mas agora certamente tem gente que precisa mais do que eu. Alguém talvez precise de gasolina para ir uma emergência, para um imprevisto, sei lá. Eu não sabia muito bem por que, mas não abasteci. Na esperança de que se lá na frente eu precisar, alguém também vai deixar de encher por que não precisa, e vai ter para mim. Essa situação nos remete ao que chamamos de escassez e abundância. Escrevi sobre isso em 2017. E muito tem se falado disso. Mas nessas horas é que vemos como é difícil agir numa lógica de abundância. Temos abundância, mas na hora da pressão agimos numa lógica de escassez.
 

 
 

 
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  • Felipe Menezes

Professor, coordenador de curso e mentor na Universidade Feevale, engenheiro, palestrante e entusiasta de futurismo. Pai do Pedro e do Luca. Adora tecnologia, mas mora em uma área rural. Filosofa, mas mete a mão na massa. Teve experiência empresarial como consultor por 15 anos. Atua também como mentor de startups, é cofundador de uma e já quebrou outra.  

 

O que estamos vendo no Brasil é o exemplo típico do pensamento de escassez. Quando pensamos em garantir o nosso, mesmo sem precisar, tiramos de outro, e o círculo vicioso se reforça negativamente gerando medo, estoque e competição.

É isso que queremos? Meu chamado para vocês é: que tal nos colocarmos como protagonistas da transformação que tanto queremos e ajudar as pessoas a abrirem os olhos para que a situação não fique mais caótica? Basta a gente consumir somente o necessário, não desperdiçar recursos e incentivar todos a fazerem o mesmo! Bora?

 
 

 
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  • Rafael Leite

Empreendedor, jornalista, criativo, apaixonado por tecnologia. Trabalhou durante anos na iniciativa pública com abertura de dados, startups, identificação de ecossistemas de inovação, criação de comunidades e redes sociais.

 

Leia em voz alta: “Cada item que retiro da prateleira, principalmente em situações como essa, é um item a menos para alguém”. É lógica, matemática.

O que isso me provocou? Levar o assunto aos meus amigos, minha família, ensinar meu filho, principalmente, para que o pensamento dele seja de que temos SIM para todos. ABUNDÂNCIA. Temos tecnologia, temos meios pra fazer diferente. Então deixo minha provocação: vamos aproveitar esse movimento como um momento único de APRENDIZAGEM. Podemos sair desse ponto para um patamar mais elevado de consciência e de ação!

 
 

 
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  • Fausto Vanin

Pai de três filhos, eterno estudante (MIT, UFRGS), maker e inquieto (tecnologia, aprendizagem, impacto positivo). Mestre em informática (PUCPR), professor, metido no Digital Business (Molho Secreto), Blockchain (Blockchain Academy, Ecoopower, Hybocracy), desenvolvedor e com um pézinho nas artes (música, dança e teatro).

 

Os caminhões pararam. E agora? Foi a pergunta que eu fiz para minhas filhas, Cecília e Anabela. Ao que a mais nova perguntou, "por que, pai?". Eu expliquei o motivo e o que eles fizeram. "Então, se ninguém entregar comida, nós vamos morrer?". Como elas já conhecem bem a lógica da escassez e da abundância, eu consegui fazer um vínculo a esse assunto para falar a elas sobre medo e egoísmo, e o quanto essas duas palavrinhas nos levam a tomar atitudes sem pensar.

Fomos nós, os bem supridos, que ficamos desesperados.
E vejamos que não é um momento "nós e eles". Agimos assim, movidos por medo e egoísmo, em vários momentos da nossa vida. Muitas pessoas sofrem isso ainda na base da hierarquia das necessidades, outras um pouco mais acima. É muito mais a forma com que lidamos com isso do que acharmos que medo e egoísmo deixarão de existir.

E a vida se ilumina no sorriso de uma criança que se dá conta que temos força para agir e transformar, ajudar e ser ajudado e, como grupo (família) passarmos por momentos como esse.

 
 

 
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  • Mariana Francisco

Co-Founder, Coach and Mentor at My Best Me / Co-founder & Hacker at Metanoia Hacking

 

Tenho pensado muito sobre como as grandes mudanças acontecem. “A natureza não dá saltinhos” me disse uma professora.

Crise do combustível, alguém disse que ia faltar e o que fizemos em massa? Geramos a falta. Fomos da oferta controlada para escassez em questão de horas pela simples ameaça de que poderia faltar combustível. Veja bem, quando criamos a falta ela ainda não era real, foi o medo de uma ideia de falta que a fez realizar.

É assim que as mudanças acontecem? Não creio. A natureza não dá saltinhos.
O que nos levou aos postos, mercados, ao pânico, não foi a falta foi o medo de mudar. Foi o medo de não ter para si e, por medo, não tem mesmo para ninguém. Não tem para pessoas, empresas, organizações que precisam muito mais do que nossos tanques que nos levam daqui pra lá. Talvez se nos perguntarmos mais isso, veremos que antes da falta ser realmente relevante nos nossos tanques e geladeiras, ela será crucial, quiçá fatal, no sistema todo. E aí, nem adianta ter garantido o nosso, sabe?
Se tudo parar, para onde você vai com o seu tanque cheio?

É verdade, precisamos mudar, mas não será pensando como sempre pensamos. Antes precisaremos aprender a coexistir. A preservar e cuidar do todo, do solo, dos animais e uns dos outros. E antes, precisaremos entender que “o todo” não está lá fora, somos nós, a soma de cada um. É assim que a mudança acontece, em um lançar-se no escuro, na compreensão do medo, na mudança do foco. Um a um, sem saltinhos, mas com corajosos passinhos de mãos dadas. Não temos alternativa.

 
 

 
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Eduardo Cheffe

Publicitário, pós-graduado em Dinâmica dos Grupos pela SBDG, é inspirado por métodos, princípios e práticas colaborativas desenvolvidos em grupos de Art of Hosting, Dragon Dreaming, Sociocracia 3.0 e Pedagogia da Cooperação. Por mais de 13 anos foi sócio fundador da Integrada Comunicação Total. Atuou como Diretor Geral do Velopark, Gerente Corporativo de Comunicação e MKT da Opus Promoções e desde 2014 esta a frente da Reframe Inovação Colaborativa onde promove facilitações, concepções de negócio, palestras, coordenação de grupos, mentorias e workshop sobre desenvolvimento organizacional e cultura colaborativa.

 

Então me veio a pergunta. Quem eu escolho ser diante do incontrolável que se apresenta? Será que novamente vamos aguardar que um Super-Herói venha nos salvar ou vamos cada um fazer responsavelmente a nossa parte? Que jogo eu jogo? A serviço de que e de quem? Tchê!!! Alguém ainda acredita em super-heróis? Se o mundo está cada vez mais VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) e se eu não controlo o Mundo, o que afinal está na minha zona de governabilidade e como eu posso colaborar a partir da consciência da nossa Co-Existência, da nossa Com-Vivência nesta nossa Comum-Unidade?

Sim, creio que inter-somos, mas quanto isso fica nas apresentações em ppt, na palestra ou no workshop? Não sei se é hora de dar resposta unicamente a fim de diminuir a tensão e apaziguar a alma. Muitas vezes as respostas diminuem a ansiedade e pouco respondem. Penso o quanto podemos explorar novas perguntas para assim, quem sabe, ampliarmos a consciência e partirmos para novas escolhas e renúncias.

 
 

 

Vivemos (e há muito tempo) guiados por uma cultura de incentivos. Desde pequenos, quando só conseguíamos o direito ao video game quando conquistávamos as notas adequadas, ou poderíamos comer a sobremesa quando terminássemos os legumes. É enraizado e não deveria. Porque em situações críticas como a atual - e todas as que ainda podem surgir - ficamos em pânico e deixamos de atentar à responsabilidade. E, sim, temos responsabilidade. Talvez não sobre o fim desta greve ou o reabastecimento, mas sobre o legado que estamos deixando.

 
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Sob esta ótica, vale o raciocínio: a que estamos dedicando nossas inteligências e nosso tempo? À criação de novos modelos, mais limpos e seguros, ou ao aumento da escassez?

O que você tá pensando sobre isso? Conta aí :)

A ideia deste artigo era gerar reflexão e debate, portanto, se você quiser seguir este papo, aposto que toda essa turma brilhante que contribuiu com o blog hoje estará sempre aberta.
E nós, é claro, sempre aqui pra trocar uma ideia.


 
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Marilia é facilitadora e estrategista de inovação, marcas e cultura organizacional. Fundou o ELEVANTE para proporcionar inovação de forma acessível e simplificada para organizações e pessoas.