Mordeu a isca? Um pensamento sobre Queerbaiting, pinkwashing, igualdade e branding.

O outro dia passei por um anuncio no meu feed do Facebook que me chamou muito a atenção pelo teor apelativo do uso de um casal homoafetivo, que não parecia representar nada do produto ou a empresa em si. Foi a falta da narrativa ou contexto que me estranhou. E como homem homosexual, que busca uma real representação na mídia, esse anúncio me levou a pensar se a empresa não estava apelando diretamente a um emocional coletivo, a uma vontade de representatividade, muito mais do que realmente a colocar na narrativa publicitária um verdadeiro vínculo na luta pelos direitos da comunidade LGBT+.

#pride

Preciso esclarecer que me sinto cheio de orgulho quando vejo que pelas políticas, ou mesmo pelas simples comunicações diárias, que uma empresa valoriza aquilo no que eu acredito. Seja falando seriamente sobre inclusão trabalhista para membros da comunidade LGBT+, falando de igualdade de gênero ou até mesmo sobre luta contra a discriminação. São grandes exemplos a seguir e bons modelos, aquelas marcas que abraçam uma bandeira (seja qual for) e promovem ações para o bem-estar desta comunidade.

Mas existe sempre (e atualmente muito mais na cara) o lado oportunista do assunto. São muitas as marcas que mudam sua cor, lançam novos produtos ou campanhas para apelar a um momento chave no ano (diga-se semana do orgulho LGBT) e, com isso, aumentar vendas.

Claramente todas as marcas querem vender, e isso é muito bom, mas se valer de um momento de marketing explorando e apelando a uma minoria sem sequer se comprometer com causa nenhuma durante o resto do ano, somente para aumentar vendas ou direcionar comportamentos, não me parece muito correto.

Queerbaiting como motor de vendas

Digo isto porque logo depois desse incômodo que me surgiu ao ver aquela campanha, comecei a prestar mais atenção aos anúncios que foram surgindo neste final de semana. E, para minha surpresa, não era somente uma marca quem estava se aproveitando deste momento.

Lendo sobre em blogs, vlogs, artigos, revistas e jornais online, descobri o termo Queerbaiting, que fala especificamente sobre a sugestão de uma narrativa homosexual em um seriado, programa de tv ou filme, sem de fato explorar isso no seu roteiro. Em outras palavras, queerbaiting é um recurso de vendas que simula uma narrativa que não será explicada no decorrer da peça. Um bom exemplo é o seriado Supernatural que, recentemente, recebeu denúncias dos fãs por sugerir uma espécie de romance entre dois personagens, a modo de criar polêmica e chamar a atenção, sem que isso seja de fato colocado no roteiro do seriado — deixando uma boa quantidade de jovens incomodados. Assim como esse exemplo, vários outros vem a mente: como a orientação sexual de Dumbledore das novelas Harry Potter, anunciada anos depois dos textos serem escritos, ou até mesmo um personagem secundário do novo Filme Solo: A Star Wars Story, que parece flertar com os protagonistas nos trailers cinematográficos.

Assim como queerbaiting é um termo que surgiu da comunidade de fãs de seriados e filmes, existe um paralelo imediato com a comunicação e publicidade em geral. Assim como outras pessoas foram percebendo esta tendência de mercado, outros termos foram cunhados.

Pinkwashing, originalmente dirigido à aquelas empresas que se apoiam na temporada de Prevenção ao Câncer de mama, aproveitando a "movimentação" sem se comprometem com a causa. Logo depois, esse termo foi utilizado também para as marcas, ou até mesmo governos, que dizem defender direitos da comunidade LGBT+, mas na prática não criam políticas ou promovem avanços na luta contra a discriminação e a segregação.

Podemos nos expandir em várias outras terminologias, tão interessantes de discutir como as que mencionei antes. Desde redwashing (suposta defesa dos ideais de igualdade social), purplewashing (falsa defesa do feminismo) ou até mesmo um velho conhecido, o greenwashing, que expõe a incrível quantidade de empresas que dizem ter um comprometimento forte com o cuidado e preservação do meio ambiente, mas não se preocupam com nada além de colocar o ícone de uma folhinha verde na logo.

 
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Levanta a bandeira, o ano todo, o tempo todo!

O meu pensamento, com tudo isto que comentei anteriormente, como constante desenvolvedor de marcas e comunicação visual em geral, é levantar o alerta para que empresas criem marcas, produtos e campanhas publicitárias com responsabilidade. Criando marcas que tenham força em seus pensamentos base, que tenham uma personalidade definida, e que, sim, discutam, analisem e critiquem certos pontos de vista. Que levantem alto a bandeira que escolhem e que o façam com muito orgulho, transmitindo conhecimento e visando o bem estar de cada pessoa que entra em contato com eles.

Temos grandes exemplos na atualidade de marcas que colocam sobre a mesa assuntos a serem discutidos, desde ensinamentos aos seus funcionários, como grandes campanhas de conscientização e esclarecimento de certas problemáticas. São essas marcas que, acredito eu, serão mais facilmente percebidas pelo público como honestas e próximas. Porque ao final de tudo, que marca não visa estar em conversa direta com o seu público alvo?
A ser continuado...

xoxo

Juan Ignacio Hervas

#happypride


 
ignácio hervas

Ignacio é Criador de universos visuais e ilustrador. Também trabalha como designer gráfico e diretor de arte, levando ideias da coxia pro palco e do teatro para o business