Multipolaridades: Aprendendo a fazer perguntas

Você vai achar que eu estou chovendo no molhado se eu disser que são tempo de polarização política? No hard feelings: eu concordo com você. Todo mundo sabe que estamos vivendo tempos polarizados. Agora, isso não quer dizer que não valha a pena conversar sobre o assunto. Eu estou aqui pra te fazer um convite, porque eu acho que a gente precisa conversar sobre essa onda de cada vez mais dividir o mundo entre nós e outros.

Polarização: respostas simples para perguntas complexas

Pessoalmente, se eu fosse reviver uma moda dos anos 1960, ficava com as calças boca-de-sino. Mas, infelizmente, polarização é uma tendência perigosa, que nunca cai em desuso e volta e meia entra na moda outra vez – em geral com mais força que qualquer tipo de calça jeans . Aparecem respostas simples e absolutas, em geral dos dois lados do espectro político, e de repente todo mundo esquece o que significa diálogo.

A gente tem um tanto de lições históricas por aí que servem pra provar o nível de periculosidade dessa tendência; também existem umas quantas análises interessantes que traçam paralelos entre o que vivemos hoje e nesses momentos extremos. Então por que será que a gente cai nesse buraco outra vez?

Fogo contra fogo vai queimar a casa toda

Uma resposta possível é que as pessoas são ignorantes e não aprendem mesmo. E disso decorre a afirmação de que são os outros que estão criando isso e nós estamos apenas nos defendendo. Mas polarizar significa dividir, e pensar nesse processo de modo unilateral é estacionar seu burrico na raiz do problema. O único jeito de sair da raiz e dar um empurrãozinho pra cortá-la é construir formas de relação com outra qualidade. É assumir que todos estamos participando na construção desse mundo dividido e sem diálogo, pois só assim podemos entender como, quando e porque. Só assim podemos entender (e quiçá construir) alternativas viáveis de diálogo, consenso e democracia.

Ferramentas: Empatia e Perguntas

Nessa busca, eu venho encontrando duas ferramentas fundamentais: fazer perguntas e exercer empatia. A empatia como ferramenta me ajuda a sair do meu lugar e buscar entender o outro. Isso não impede que minha conclusão final ainda seja que o que essa pessoa fez ou disse é indefensável. Mas pode me ajudar a entender o lugar de onde ela vem e as raízes das suas ações.

O exercício da empatia pode me levar a entender e aceitar o que outro está fazendo ou dizendo. Mas ele também pode me levar a mudar a fala ou ação do outro porque, pra começo de conversa, eu reconheci a legitimidade da perspectiva deste outro e fui capaz de estabelecer diálogo. Ou nenhuma das anteriores, mas pelo menos eu dei um passo em reconhecer a humanidade no outro.

É claro que empatia tem limites. No meu caso, eu não consigo dialogar de verdade com quem não entende a vida e a dignidade humana como valor fundamental. Nesses casos em que a empatia me falha, a outra ferramenta entra em campo com mais força. Eu faço perguntas e deixo o outro falar, enquanto ele me ajuda a entender um raciocínio que eu provavelmente não vou aceitar, mas com o qual eu vou ter que conviver (e ao qual posso escolher resistir).

As perguntas, claro, também são fundamentais quando a empatia está em campo. Quem detém as respostas não sabe se colocar no lugar do outro.

É que se colocar no lugar do outro é o oposto de saber. Empatia é questão de assumir que não sabemos, que nunca vamos estar no lugar do outro, mas que estamos dispostos a sair da nossa caixinha egoísta pra buscar entendimento. Fazer perguntas ajuda a exercitar nossa eu democrático, que entende que não sabe de tudo. Ajuda a evitar conclusões sobre males e bem absolutos. Questionar a si e aos outros nos lembra nem tudo é relativo, mas muita coisa é.

Perguntas complexas num mundo complexo

E com essas duas ferramentas na mão que a gente quer o começar nossa Conversa Rizomática (nome em progresso, cá entre nós). Essa não é uma proposta jornalística, até porque gente muito mais qualificada por aí está tentando “trazer equilíbrio à força”, ouvindo diversos lados e checando fatos. A gente não tá aqui pra produzir conteúdo, mas pra começar conversas bem informadas e carregadas de questionamentos.

Não temos nenhuma intenção de neutralidade, mas queremos transcender fronteiras e divisões. Tanto divisões entre os lados de um debate, quanto divisões entre diferentes áreas e formas de conhecer a realidade. Se a gente vai conseguir fazer isso, só você vai poder dizer.

Mas nossa intenção é usar lentes não polarizadas para analisar um mundo dividido, nos mais diversos aspectos. Quando eu falo polarização política, você talvez pense na divisão cada vez mais gritante entre Petistas e Anti-Petistas, os famosos Petralhas e Coxinhas. Mas a política perpassa as mais diversas formas de relação e existe muita nuance nesses processos de polarização.

Homens, mulheres e o que estamos querendo

 
foto by Pinterest

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Relações de gênero, você talvez já tenha percebido, são políticas. E talvez agora você esteja pensando na manifestação da nova ministra sobre cores apropriadas para meninos e meninas (junto com a reação, hashtaguizada ou não, que seguiu). A divisão entre aqueles que chamam isso de relações de gênero e aqueles que chamam a conversa toda de ideologia de gênero é um bom exemplo polarização política. Mas a gente não precisa estar em Brasília pra encontrar política.

 

Um exemplo interessante: a cerimônia do Globo de Ouro do ano passado. Se eu não me engano, a coisa começou a pegar fogo com o discurso da Oprah, e na sequência a cerimônia virou um palanque do movimento Me Too e outras pautas feministas (não sei você, mas eu estava assistindo de pé e achando lindo). Mas passada a premiação, muita gente criticou os homens presentes por não terem tomado uma posição.

Agora, será que se eles tivessem tomado uma posição, algumas pessoas não leriam como invadir o lugar de fala das mulheres? Mais além, quais as chances de um homem nascido no século XX não cometer alguma gafe imperdoável enquanto improvisa um discurso sobre gênero?

 
 
 
 

Meu ponto é que um movimento como o Me Too, por mais fundamental que seja, pode terminar polarizando a conversa entre homens e mulheres. Com isso, se exclui os homens da conversa, quando eles são peça chave pra acessar o problema. Mas como incluir eles no diálogo sem perder a qualidade de dar voz às mulheres? Como tomar a decisão de acreditar nas vítimas, sem jogar na mesma fogueira pessoas que são inocentes? Como dar voz aos homens que são vítimas de abuso sexual, sem desconsiderar que as vítimas são majoritariamente mulheres?

Eu poderia gastar milhares de caracteres aqui, fazendo perguntas e levantando hipóteses sobre esse tema. Mas o convite é pra uma conversa e não um monólogo. Eu, o André Osna, a Marília Silveira e outros convidados vamos nos reunir mensalmente pra desenrolar esse tipo de conversa. Se te parecer interessante, apareça.


 
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Marina é doutoranda em educação e pesquisa políticas públicas para educação infantil no Brasil e nos Estados Unidos. Trabalha com ensino de línguas em espaços comunitários e se interessa por interculturalidade, gênero e desigualdes.