Propósito, conexões reais e Hannah Gadsby

Depois de um mês com o pé na estrada, naquele momento sublime que é voltar pra casa e sentar no próprio sofá, fui abduzida, sem relutar, pela Netflix. Dentre tantas novidades e conteúdos não-terminados, tive a sorte de mirar o controle em Nanette, o stand up comedy da australiana Hannah Gadsby. Um discurso poderoso sobre violência de gênero e preconceito, uma verdadeira obra prima do storytelling, com lugar de fala e referência. Ela me fez pensar - e muito - em vários aspectos loucos da minha jornada como mulher e empreendedora mas, mais do que isso, me fez pensar sobre a importância das conexões genuínas, do compartilhamento das nossas histórias pessoais e no quanto é importante agir de acordo com os próprios valores. Hannah utiliza sua história pra deixar claro: ela não pode mais fazer o humor que a coloca em situação degradante, espalha o ódio ou vai contra o que acredita.

Durante parte do vídeo, Hannah parece agressiva, revoltada e causa um certo estranhamento ao espectador, mesmo que ela esteja em pleno direito de voz. E é exatamente disso que eu quero falar, mas sem ir tão longe na minha história. Apenas uma semaninha de acontecimentos é suficiente pra trazer estes pontos à tona.

Na semana passada, eu vivi experiências que demonstram o poder da conexão entre pessoas e propósitos. Presenciei o nascimento de um projeto que significa o crescimento de uma das empresas que atendo, não só no sentido empresarial, mas também no aspecto de consciência e materialização de crenças. Passei boas horas estudando o universo de profissões muito diferentes da minha pra tentar me aproximar um pouquinho da realidade dos trabalhadores de uma empreiteira, pedreira e concreteira. Estive em uma roda de conversa sobre reinvenções - de nós mesmos, de contextos, dos modelos de trabalho, das empresas-  ao melhor estilo Roda Viva, ao lado do cara que impulsionou minha reinvenção como profissional (pei!) e de uma mulher admirável que esteve numa palestra que ministrei com seu quarto filho nos braços e se tornou amiga e ídola. Participei também do batismo de um novo negócio que traduz um sonho, daqueles que são tão fortes que vão além da satisfação pessoal dos envolvidos e acabam tocando ideais muito maiores.

Posso dizer com convicção: nenhuma destas vivências seria tão intensa e rica em aprendizado se eu não me sentisse conectada com cada uma das pessoas com as quais trabalhei nestes dias. Esta ligação, que ultrapassa os negócios, tem sido possível, real e profunda desde a busca pela metamorfose do meu próprio mindset: sair do linear, pensar no indivíduo e no coletivo, na entrega de valor, no aprendizado e no longo prazo. Um raciocínio que é muito vivo no trabalho em rede e, por enquanto, pouco valorizado no que tange as organizações tradicionais. E é por isso, que eu acho importante exaltar as firmas e pessoas maneiras que estão com a gente nessa.

 
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Não é mesmo?

História 1 - Tristano Peluqueria e a expansão para o compartilhar de conhecimentos

O Tristano Tristano nunca foi apenas um salão de beleza. É um espaço de liberdade, de reavivar personalidades diferentes e de autoestima, muito além dos padrões estéticos e sociais bestas. Da transformação de tudo isso em ações práticas e de maior impacto, nasce o TristanoLab, um laboratório experimentação, compartilhamento e debate, onde profissionais da área e interessados podem aprimorar seus conhecimentos e desenvolver habilidades. Projetá-lo demandou conexão. Foi necessário estudarmos todo contexto mundial sobre o tema, criarmos um canal direto com aquilo que o público acredita em termos de conceito de beleza, muito áudio no WhatsApp e muita batata frita no boteco de mesa amarela com a Aninha, a boss lady desta empresa. Foi fundamental envolver a todos que fazem o dia a dia do Tristano acontecer, por isso instituímos um encontro periódico da equipe, fora do ambiente de trabalho, para argumentar, analisar e criar o futuro. Sobre o primeiro encontro, só digo uma coisa: nada, absolutamente nada, substitui a sensação de ver a empolgação com a nova empreitada, se manifestando através de uma chuva de ideias urgentes e sobrepostas na conversa, cada nova possibilidade parecia ter prazo curto pra vir ao mundo, as mentes não paravam de pipocar porque todo mundo estava realmente sentindo a ligação com o objetivo. Enquanto a rotina nos suga, proporcionar momentos assim é quebrar o status quo na raíz e criar o novo de forma colaborativa. A gente bota muita fé em tudo que tá sendo criado e toda vez que chega uma mensagem como "Vocês salvam a gente!", a conexão com essa galera e com o propósito se renova, a confiança mútua fica evidente e eu tenho certeza do porquê eu faço o que faço.

 
tristano
 

História 2 - Alex, SebraeLab e Quintalks

O Alex sempre foi o cara da controvérsia. Ele repensa e ressignifica, nasceu pra isso. Pra vocês entenderem o quanto, vou contar um fato sobre ele. Após ser convidado pra palestrar no Ted Talks, foi solicitado que encaminhasse uma frase pra compor seu banner da comunicação do evento, a frase que aparece junto com a foto e o nome do palestrante, sabe? Ele queria que fosse "Pra dançar créu tem que ter disposição", claro que não deixaram. Deu pra sacar? Esse é o Alex, o cara que prefere remexer as situações do que reclamar delas. Por isso, ele participou da licitação para administração do SebraeLab Santa Catarina, o primeiro que abriu a possibilidade de ser administrado por uma empresa privada. Toda aquela marra conservadora aliada ao cara que cita Créu. O objetivo é trazer vida ao ambiente, gente circulando, ideias novas. Sabe o que é mais legal? Nas duas vezes que estive lá, foi exatamente isso que eu vi. Nesta última semana, rolou o Quintalks, a roda de conversa sobre reinvenções na qual Alex era mediador e Lizia - a psicóloga mãe de quatro que inspira só com o olhar - e eu éramos talkers. Além de vida, eu senti conexão, porque os participantes se despiram de suas máscaras sociais ao compartilharem experiências e fraquezas, assim como Hannah Gadsby em seu Stand Up. O comentário de um dos caras que tava lá foi: "entrei com a cabeça assim (gestual de algo pequeno) e saí com ela POW (onomatopéia de explosão)".

Eu também senti isso e foi só uma conversa, mas foi uma conversa onde houve conexão.

Não só entre Alex, Lizia e eu, mas com todos os presentes, justamente porque todos se sentiram à vontade pra expor seus anseios e histórias. Muitos dos participantes nunca tinham se visto e, em vários momentos, os olhares se cruzavam comovidos com tudo que estava sendo dito. Parecia que, por algumas horas, todo mundo tava no mesmo barco, querendo evoluir. Conexão sendo mágica, mais uma vez.

 
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História 3 - A empreiteira que nos chamou pra entender a empresa através de seu time

Quanto à empreiteira, pedreira e concreteira, meu maior desafio desta semana foi absorver, todos os dias, um pouquinho do que me foi dito durante a pesquisa qualitativa que realizamos com os colaboradores. Flutuar entre várias percepções: o pessoal que fica atrás do computador cheio de insegurança e sem autonomia, as pessoas que se abstém do próprio pensamento crítico e seguem repetindo o discurso estabelecido, os funcionários mais antigos que se emocionam com as oportunidade que tiveram, a visão do cara que trabalha no asfaltamento de um trecho da BR apontando as dificuldades da sua rotina, sem perder a leveza de quem se satisfaz com cada centímetro de estrada pronta. No fim, mesmo sendo uma organização gigante e sólida, tudo isso é história de vida, de muitas vidas. Buscar a inspiração em cada uma dessas pessoas pra criar meios de estabelecer uma cultura mais eficiente e colaborativa é conexão, é humano, não é só técnica.

História 4 - A cervejaria que vai produzir muito mais que cerveja e os clientes que viraram amigos

O nascimento de uma cervejaria cigana. Pra começar, os cervejeiros Caio e Gabi chegaram até nós através do Lucas, da Ocean Drop, uma empresa que atendi na Glóbulo em 2015, junto com o Alex (sim, o mesmo cara do Créu) e, por ser uma empresa sinistra, nunca deixou de fazer parte dos meus papos, palestras, artigos e rotina (afinal, sou cliente fiel desses caras). No primeiro call com Caio e Gabi, já éramos brothers e tínhamos até piada interna. Como explicar isso senão pela conexão genuína? Desde então, tudo foi aberto. Caio não pensa duas vezes em nos ligar caso tenha dúvidas, Gabi compartilha tudo que encontra e que pode auxiliar no processo. A imersão inicial que começou com foco no business às 9h da manhã de um sábado, virou papo filosófico sobre a vida às 18h e terminou com uma rádio local tocando exatamente a banda que que mencionamos ao descobrir gostos musicais parecidos. Com tanta sintonia, o desenvolvimento da estratégia e do naming nos pareceu natural, mesmo com tanta pesquisa e expectativa. A gente entendeu o que Caio e Gabi queriam que a cervejaria significasse na vida deles e na de quem tiver contato com a firma. A aprovação desta etapa teve brilho nos olhos da Gabi e Caio, andando de um lado pro outro, mandando mensagem pros amigos; ambos em êxtase. Teve também o papo sobre sonhos que tiveram nas noites anteriores, sobre o tarô que foi lido, sobre o futuro onde ELEVANTE e Cervejaria permanecem juntos criando valor.

 
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Conclusão: E o Stand Up? Por que ele foi citado no começo do texto?

Porque tudo isso, toda essa conectividade, é o que possibilita a mudança positiva começando pelos relacionamentos, passando pelas organizações e chegando em quem precisa.

O discurso f*da da Hannah Gadsby sobre a atitude de não servir mais ao que vai contra sua essência, o valor das histórias de vida e conexões profundas, me vestiu como uma luva  depois desta semana tão intensa. Já passei um bom tempo aceitando a realidade do mercado e convivendo com alguns clientes, empresas e profissionais que não tinham uma relação completa com as minhas batalhas e crenças, e, como Hannah, eu resolvi que não dava mais. Sentir que estava investindo tempo e conhecimento pra contribuir com objetivos mesquinhos e alimentando egos inflados doía. Sentir que, ao me posicionar firmemente, eu poderia estar causando riscos à minha carreira (e ao meu bolso) causava insegurança. No entanto, esta última semana comprovou que mostrar minhas fraquezas, falar livremente do que considero importante e do que acho bullshit no universo empresarial, afastou o que não agrega e trouxe até mim as experiências, empresas, colaboradores, freelancers, projetos e empresários que valorizam o poder do propósito, da colaboração e do relacionamento transparente.

 
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Valeu, Hannah, por me fazer perceber tudo isso. O momento é de celebração por aqui, mesmo que só internamente, na conexão entre Marilia pessoa física e Marilia pessoa jurídica. E a jornada segue como um quebra-cabeças, onde cada peça que se encaixa é essencial e significativa justamente porque se conecta espontaneamente. Se você se sentiu conectado com um pedacinho deste texto, manda um oi pra mim?

Talvez nossa conexão já exista e a gente nem sabe ;)


 
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Marilia é facilitadora e estrategista de inovação, marcas e cultura organizacional. Fundou o ELEVANTE para proporcionar inovação de forma acessível e simplificada para organizações e pessoas.